• Históricos, Clássicos e Outros

    Nas últimas décadas é inegável que o interesse pelos veículos ditos “clássicos” se desenvolveu substancialmente por esse mundo fora e muito particularmente em Portugal. Tal desenvolvimento foi de certo modo acompanhado por duas ideias generalizadas, não só entre o grande público mas também entre muitos dos directamente envolvidos.

    A primeira é que qualquer automóvel ou moto com aspecto de velho é um clássico que nos espreita a cada esquina. A segunda é que a acompanhar tal “clássico” pode estar um chorudo cheque, já que só pode ser sinónimo de elevado valor.

    Lembro-me de ter sido sócio de um clube italiano, o Automotoclub Storico Italiano, que hoje já não é clube mas sim a federação dos clubes de veículos antigos italianos, que logo no seu princípio, 1966, instituíu uma lista de marcas e modelos que admitia como “históricos”, o que na altura significava na prática quase o mesmo que “clássico”. Não se poderá hoje dizer o mesmo. Na verdade acho ser justo admitir que uma época houve que conferiu a todos os veículos que agora dela sobrevivem o estatuto de “histórico”. Sujeito a discussão, poderemos criar um limite temporal para essa época, quer seja 1900 ou 1914 ou outro. A partir de tal período as coisas começarão a complicar-se um pouco.

    Tive o previlégio de poder ainda conviver com quem utilizou veículos motorizados praticamente desde que estes foram introduzidos na vida diária de uma forma minimamente prática. Conto primeiro entre estes meu avô, nascido em 1877, que conduziu moto provávelmente ainda em 1901 e automóvel em 1902, António Guedes de Herédia, que circulava ao volante em Lisboa antes de 1910 com nove anos de idade, e ainda, se bem que mais novos, João Dias da Silva, um dos homens que talvez melhor conhecesse carros por dentro porque vendia peças para quase todos, e Mateus de Oliveira Monteiro, pelas mãos de quem passou praticamente tudo o que tivesse rodas e andasse nas décadas míticas que vão de 1920 a 1950.

    Nas conversas que com eles tive duas frases eram recorrentes: “ Esse era grande carro “ ou “ Isso partia-se a cada esquina “. Comecei a perceber o porquê de meu avô ter usado o Ford A no campo, tal e qual como se fosse um Land-Rover”, durante quase 30 anos, até os filhos não o deixarem conduzir mais, e António Herédia continuar com o Denzel na vida diária, até o mesmo há muito já despertar o interesse de colecionadores.

    Foi portanto assim que, quando comecei a ter a possibilidade de adquirir para restaurar, primeiro motos, e depois automóveis, não me atirei de cabeça para os primeiros que apareceram no meu horizonte financeiramente limitado. Escolhi o melhor que pude tudo o que era posterior a 1920, e agarrei o que apareceu anterior.

    À minha maneira tinha criado a noção de “clássico” e “histórico”. Tudo o que fosse mesmo muito antigo seria “histórico”. A partir daí “clássico” teria outras vertentes para além da idade. Teria que incluir “mérito” no sentido de apresentar inovação técnica ou de desenho. Teria, para ser também “histórico”, numa medida mínima, de ter alguma ligação com qualquer facto histórico como por exemplo ter pertencido a personagem de relevo,, ou ter participação relevante em competição, ou em última análise ter ligação especial com o meu país. Mas acima de tudo deveria ter sido construído com “qualidade”. Na verdade, para além de estar em museu, para que servia um automóvel ou moto avançadíssimo para a sua época se, como me diziam os meus mentores, “ partisse a cada esquina “.

    Em resumo, nada tenho a objectar à actual definição da FIVA, apenas me parece que se torna essencial, para evitar desilusões, que tão frequentemente afastam desta actividade tão atraente quem as sofre ( e eu não conheço só um caso ), uma cuidadosa e bem divulgada interpretação das palavras nela usadas.

    Também é provável que diminuir, sem séria justificação, a idade dos veículos aceites dentro da definição de “clássico” não passará, ás vezes, de uma boa oportunidade para alguns desencalharem uns monos que caíram na asneira de comprar quando a ideia que tinham de “ futuro clássico” andava ainda mais afastada da realidade que a de “clássico”.

    Norberto Pedroso







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