• Apetecia-me ir… de Vespa! Bairrada Histórica 2010



    Nas vésperas do passeio, telefono ao David (que era quem o organizava) a perguntar se podia trocar de montada pois o 928 estava (e está) à espera de umas pecitas para o Verde Pino e, sobretudo, de vontade de lhas pôr…
    - “Claro que sim!” Disse-me de imediato. Logo acrescentando:
    - “E que carro trazes?”
    Respondi-lhe:
    -“Carro?! Bem… Um todo atrás refrigerado a ar!”
    -“O 912?!”
    - “Não é bem… Olha, estou aqui a olhar para ela e com este tempo (chovia na altura e estava um frio do caraças) era literalmente cool levá-la! Para além disso, se não for assim, a desgraçada nunca vê a luz do sol. Acho que está parada há anos!
    Bem… A verdade é que apetece-me ir de… Vespa! Pode ser?”
    Ouvi uma gargalhada tal que imaginei logo que estava feita a festa!
    - “Pode pois!” Respondeu-me ainda a rir! ”E o road-book? E as continhas que precisam de fazer? “



    - “Logo se vê, mas com as altas performances da montada, dará tempo para esperar (escondidos) antes dos controlos horários e fazer as contas todas, com provas dos nove e tudo! Ou isso ou ir sempre a fundo e, mesmo assim, penalizar por atraso que nem uns tolinhos…”

    Agora, esperava-me a segunda tarefa hercúlea da coisa! Dizer à Guida que, afinal, íamos dar uma volta no sábado mas de… Vespa! Depois de me abrir os olhos com aquela cara em que já sei que vai sobrar para mim, só me disse que se chovesse nem sequer saía de casa.

    Vá lá, vá lá…

    A partir daqui, só me restou por uma velinha ao S. Pedro e aguardar pela manhã.
    Sábado, amanhece com um sol radioso (tirando as muitas nuvens) e toca de dizer à navegadora que não vai haver molha para ninguém e que, logo que pudesse, arrancasse para Oliveira do Bairro.
    Destapo a 125 Sprint, abro a torneira da gasolina e fecho o ar. Depois de encher o peito de ar dou uma Kickada e… não está colada! Fixe… Volto a encher o peito e toca de dar mais algumas, aí umas 100… De repente, fumo branco! Muito fumo branco!!!
    Duas aceleradelas depois, Brrrééééééémmmeeememememe, brrrééééééémmmeeememememe! Engreno primeira e com um suave clank, acompanhado de um solavanco… zinho, arranco em direcção às bombas para atestar e dar pressão aos pneus.
    Seis euros e cinquenta depois, lá vou em grande velocidade para a partida. Esperam-me cerca de 25 Km até Oliveira do Bairro para (re)conhecer a máquina e ver se está tudo bem desde a última vez em que andámos juntos, que terá sido ainda no séc. XX!

    Pelo caminho, depois de duas tentativas para “disparar” um semáforo… Nada!

    _”Queres ver que esta m… nem sequer dá 50?!”

    Antes de Oliveira do Bairro ainda há mais um semáforo! Baixo-me, ganho mais balanço, cerro os dentes e… nada! Isto parece andar cada vez menos. Bem, seja o que Deus quiser…

    Chego ao “Espaço Inovação” e toca de formalizar a inscrição. Vamos ao secretariado e digo que estava inscrito de Porsche mas que, afinal, vinha de Vespa… A senhora que nos atendeu, a rir, disse: “Eu estava com o David quando lhe disse que vinha… nisso!” E continuou a rir enquanto nos dava a “tralha” toda.
    Vou para o parque para pôr os números na máquina e vejo dois autocolantes do LKC deixados pelo Jorge. Afinal era para ser um treino da “equipa”…
    A Guida foi ao carro equipar-se quando já se começa a preparar a saída. Entregam-nos o Road-Book e a carta de controlo. Quando chega, falamos um bocadinho sobre o significado daquilo (ela detesta mapas e coisas do género) e tomamos o nosso lugar na fila.
    - “Olha, se calhar é melhor tirares as luvas! Como é que viras as páginas?” Sugiro eu… Entretanto percebo qualquer coisa que terá dito entre dentes, mas não me pareceu que fosse muito simpático.

    Chega a nossa hora e toca de arrancar em grande estilo, ou seja, sem cair!

    Primeira figura do Road-Book , segunda, terceira e tudo a correr lindamente. De inicio só não consigo é ouvir nada do que a Guida diz, mas depressa percebe que tem de gritar mais, bastante mais! Mas mesmo muito mais! A dada altura, uma descida! Mas nem a descer aquilo andava. Vem uma ligeira subida e tenho de pôr primeira e, mesmo assim, aquilo “morre”. Parámos na berma, no meio de nada e vemos logo uma fumarada a sair da traseira. Inclino a Vespa e adivinho o travão colado por causa de uma espia demasiado esticada pelo peso do conjunto, sobretudo por causa da minha parte do conjunto! Passam os dois concorrentes que saíram depois de nós e, simpaticamente perguntam se precisamos de ajuda. Agradeço e, como qualquer “gajo”, acrescento que está tudo sob controlo. “Apenas um excesso de afinação do travão facilmente resolúvel com uma chave de bocas que… tenho aqui”! Pensava eu… Acenámos e toca de pôr mãos à obra. “ Ora isto tem caixa de ferramentas aqui de lado e um fecho! E a chave do fecho?” Procurámos, procurámos e lá estava ela na bolsinha da capa do sobressalente, a par com os documentos. Abro a caixa e vejo a ferramenta toda. Um alicate e uma chave de fendas!… Ora bolas! Após umas tentativas, não consegui sequer aliviar o serra-cabos. Optámos por seguir viagem até à povoação mais próxima e tentar arranjar uma chave por lá. Fomos, cada vez mais devagar até chegarmos à “Palhaça” (é mesmo o nome da povoação). Sabia que havia por lá uma bomba de gasolina daquelas à moda antiga (estação de serviço é outra coisa…) e que esta deveria ter chaves. Só que uns 200 metros antes, o pneu de trás…

    PUM!!!

    Por sorte íamos muito devagar, senão tínhamos passado com o lombo pelo alcatrão que era um mimo! Aquilo estoirou porque a jante aqueceu de tal modo que a pressão do pneu passou para valores muito acima dos admitidos por um pneu novo, mas fabricado em 1978…

    Ponho a Vespa no descanso e olho para a Guida a tentar adivinhar o que lhe passava pela cabeça. Temo pela minha integridade física e vejo que é melhor pôr-me a milhas, à procura da chave para o travão e, já agora, outra para mudar a roda. Chego à bomba e lá me deixam vasculhar nas velhas ferramentas. Encontro o que procuro e aproveito para perguntar se me podem pôr um pneu. - “Claro que sim! Mas só às duas!”
    Ó diabo, isso é capaz de ser tarde! Pensei eu. Ponho-me a correr para a máquina, quer dizer, a passo medianamente acelerado e toca de tirar a roda de trás. Escaldei-me todo mas lá saiu. Tiro a roda sobressalente e toca de correr outra vez para a bomba para lhe dar um bocadinho de ar. Um bom bocadinho, quer dizer…Encher mesmo! Devia ter visto isso de manhã, mas… Montámos tudo e só me faltava aliviar o causador disto tudo, o travão de trás. Desaperto um bocadinho o serra-cabos e peço à Guida para travar. Quando o faz, vai-se a espia toda… Como não me apetece perder mais tempo, decidimos arrancar sem travão de trás o que, numa Vespa, revela vontade de alguém nos propor para uma profunda avaliação psicológica!

    A partir daqui, foi sempre a “dar”, 50, 60 e por vezes 70 km/h. A “pura da loucura” como diz o Tochas! Numa Vespa com 43 anos, com estrada molhada e sem travão de trás?! Tudo o que pode oferecer o mais radical dos desportos, mas sem o “cabo de segurança”! “Inté” passámos dois papa-reformas e deitámos abaixo 3 semáforos!... Era sábado, não havia escola! Ok?! Seus legalistas…



    Passámos por uma povoação que se chama "Ancas" e só me apeteceu dizer "abram alas"! Mas não disse, a Guida podia ouvir...

    Quando chegámos, com o último lugar garantido, já estava tudo com desejos de leitão e ficaram tão contentes por, finalmente, poderem ir almoçar que não esconderam tamanha alegria. Por momentos, pensámos que era para nós. Foi bom…

    À tarde, havia uma prova de perícia. Afinámos o travão de trás e “mostrámos o verdadeiro ferrão” aos trinta participantes…
    Ficámos em primeiro empatados com mais três concorrentes, sendo que um deles foi o Jorge Dinis. Portanto, resultado decisivo para a vitória por equipas…
    Para o ano, tenho de limpar a face e ir…

    …Outra vez de Vespa!


    Fotos: RuiSPL